quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Promete-me.

Desembrulhei o teu último presente, meu amor. O último! Como é triste esta palavra: não me deixa esquecer que a partir de agora só a tua lembrança me resta. A tua lembrança e estas folhas onde vou deixando pedaços da minha alma.
Já sei o que estás a pensar, M. - que estou a ser pessimista, que há muita vida lá fora, que eu e esta sala pouco iluminada não fomos feitas uma para a outra. Prometi-te estar preparada para seguir em frente - é por isso que me deixas, como último presente, este livro intitulado “Promete-me”? - e eu sei o quanto odeias promessas quebradas. Bolas! Que raiva de te ter perdido, M.. Que raiva desta vida desgraçada que acaba antes do tempo. Que raiva, que ódio dessa maldita doença que nunca te roubou o sorriso, mas te roubou de mim! Que raiva de ti que me deixaste, M., e que raiva dessa tua mania de que eu sou mais forte do que penso. 
Perdoa-me, meu amor, mas eu não quero seguir em frente. Ainda tenho a tua garrafa de whiskey favorita: está na mesma estante onde a deixaste. E a tua almofada continua intacta - tenho a esperança que o teu odor perdure e me mantenha a ilusão de que nunca te foste embora. 
Acima de tudo, M., continuarei a escrever-te: é a única coisa que te prometo. Escrever-te-ei sempre e em cada momento, porque sei que me lês, onde quer que estejas, à tua maneira - criticando o meu dramatismo e o meu uso dos pontos finais. Mas só através destas linhas te posso continuar a dedicar a minha alma, meu amor. Serão os meus presentes eternos para ti!

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Até sempre 2014. Olá 2015!

Gosto de balanços de fim de ano: de interiorizar e saborear as minhas vitórias, de refletir sobre as minhas derrotas e aprender alguma coisa com elas e de definir metas e objetivos para o novo ano que se aproxima.
2014 foi um ano muito generoso, como aliás 2013 também tinha sido. Trabalhei muito, sorri muito, beijei muito, amei muito, viajei muito. Chorei pouco. As poucas vezes que chorei, chorei de saudades. Dos meus, dos que estão longe e eu queria perto. Nunca se pode ter tudo.
Em 2014, a minha irmã, a pessoa mais importante da minha vida, realizou o sonho da vida dela. Ah! Lembro-me agora: também chorei de alegria no dia em que este sonho se tornou realidade.
Em 2014 o meu pai tornou-se mais saudável, deixando-nos a todos com o coração mais leve e mais cheio.
Em 2014, a minha irmã, que só não o é de sangue, deu-me uma das maiores alegrias da minha vida - não vou ser mãe, mas vou ser madrinha e este novo amor preenche-me mais a cada dia. 2015 trará a baby A. e todos seremos certamente mais felizes!
Em 2014, a minha amiga de sempre casou e quis-me pertinho para partilhar as alegrias desse momento e de outros que se têm seguido.
Em 2014, a minha mãe, para quem o ano foi um bocadinho duro, mostrou mais uma vez que é uma guerreira, uma força da natureza, uma alma sem par e sem comparação. Em 2014, como em todos os anos que virão, é a ela que vou buscar toda a minha força, toda a minha garra, em qualquer momento.
Em 2015 não peço muito mais do que o que pedi em 2014. Quero muita saúde para todos os meus: que os meus avós continuem a sorrir, que a baby A. chegue com muita luz, que as minhas irmãs continuem felizes, a aprender e a crescer muito com o que a vida lhes vai dando, que a minha mãe continue a defender-se com gargalhadas, que o meu pai e todos os seus vivam com muito amor e muita paz, que os meus amigos continuem por perto no coração e me deixem partilhar as suas (muitas!) alegrias e as suas (poucas!) tristezas.
Que o meu amor cresça muito, cada vez mais. Em 2015, quero partir de novo, de braço dado com ele. Porque queremos que "se o chão desabar nos leve aos dois".

Feliz 2015! "Saúde e paz, o resto a gente faz!"

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Escrever-te.

Amar-te.
E saber que nunca mais estaremos sós.
Caminharemos juntos, de braços entrelaçados, num futuro que escolhermos viver.
Aprender-te. Sonhar-te. Sorrir-te. 
Acordar ao teu lado e saber que, pelo menos aqui dentro, enquanto aqui estamos, o mundo gira no sentido certo.
Abraçar-te de manhã e apertar a tua mão ao adormecer.
Ter medo de te perder. E vontade de te viver!
Admirar-te.
Ver-te chegar ao final do dia e saber, meu amor, que nada me traz mais felicidade.
Por isso gosto de chegar antes de ti. Nesses momentos sei que apenas o amor pode trazer tanta luz.
Conhecer-te.
Saber o lugar que ocupas. E não duvidar nunca dos lugares que gostas de ocupar.
Prever os teus humores e acreditar, inocentemente, que te protejo dos teus temores.
Desejar-te.
Sempre e para sempre mais. 
Agradecer-te.
Pelo que veio e pelo que há-de vir. Pelo que és e pelo que serás.
Mas, sobretudo, pelo que me fazes ser e por me deixares acreditar que os sonhos comandarão a minha, a nossa vida.
Esperar-te. Encontrar-te. Viver-te. 
Sempre. 

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Pura poesia.

Tenho um sonho. Não. Tenho muitos sonhos. Muitos, enormes, muitos deles muito difíceis de concretizar. Nunca tive medo de sonhar.

Mas este sonho em particular tem-me desassossegado o espírito. Tem-me feito pensar que nada valerá a pena se um dia, tendo a oportunidade de refletir naquilo que foi a minha vida, chegar à conclusão que falhei a realização deste.

Quero ser escritora. Escritora de histórias e historinhas e romances que nunca acabam, porque quem os ler irá eternizá-los na memória e no coração.

Quero escrever à mão. Passar os meus dias só com o meu bloco de notas e a minha caneta e escrever até me doer o pulso. Guardar o que é meu só para mim. Dar aos outros o que é dos outros. Dar amor através das palavras e receber amor através da leitura.

Quero ser abraçada através das páginas preenchidas por mim. Dar uma vida nova a personagens que já são reais numa outra vida que não escolheram. Ou criar vidas totalmente novas, únicas como todas as vidas, mas em nada diferentes de todas as que já existem.

Quero viver em todas as cidades do mundo e construir caminhos entrelaçados nas minhas linhas. Quero criar amores e desamores em Lisboa, em Nova Iorque, em Pequim e em Nairobi.

Quero pertencer a 1814 e a 1929 do mesmo modo que 1989 me tem. Quero estar em todos os períodos de tempo que me fascinam e sobretudo em todos os que me assustam. Quero sonhar no passado e viver no futuro. E escrever agora.

Quero muito e acima de tudo que as minhas palavras, os meus textos e tudo o resto que eu for construindo, chegue aos meus descendentes. Que eles vejam mais com o coração do que com os olhos como eu tento sempre fazer, porque só assim se vê realmente bem.

E para além disto tudo, quero realizar coisas fantásticas, ver o que nunca vi e assistir à criação do que nunca foi criado. Quero muito e quero muito pouco:

O mesmo abraço de bom dia todos os dias da minha vida é, em si mesmo, pura poesia. Estará sempre muito dele em cada letra minha.

Até já.
Ana

domingo, 4 de maio de 2014

A minha mãe. A melhor de todas.

Ha pessoas que chegam ao mundo com uma missão e eu sempre soube que eras uma delas. A tua missão foi sempre a de dar tudo de melhor que há em ti aos outros. Deste tudo de ti sobretudo a duas pessoas em particular: nós, tuas filhas. E quando digo que deste tudo, quero dizer que nos deste inclusivamente toda a tua vida. Foste mãe e foste pai durante muitos anos e isso nem por um segundo te diminui a força, nem por um segundo te tirou o sorriso, nem por um segundo te permitiu fazer-nos sentir as tuas dores. Desde o primeiro dia das nossas vidas que tivemos uma fortaleza à nossa volta: tu. Contigo chocaram muitas coisas más e muito sofrimento, mas até nós só chegava uma ínfima parte deles. Até nós chegavam, na sua maioria, coisas boas, alegrias e conquistas que só tu, como ninguém, sabias partilhar connosco.
Foste tu a primeira a dar-me a mão quando, muito jovem ainda, quis sair dessa fortaleza e experimentar o mundo por mim própria. Foste a primeira a dizer-me "vai, sê feliz" e desde então te tornaste não só a melhor mãe que eu poderia ter, mas também a minha melhor amiga e a minha mais fiel companheira.
Disseste-me muitas vezes que não tinhas pretensões de ser a minha melhor amiga, porque ser mãe é diferente de ser amiga e ser mãe por si só já responsabilidade suficiente. Mas ao longo destes meus 25 anos, a verdade é que conseguiste ser mãe e amiga e companheira e confidente e muito mais do que isso.
Foi para o teu colo que corri quando tive os meus primeiros desgostos de amor. Foi à tua opinião que recorri quando me senti insegura. Foste a única pessoa que leu os meus diários. Continuas a ser a única pessoa a quem eu telefono todos os dias.
De ti herdei a resiliência e a capacidade de levantar a cabeça e enfrentar os problemas, quaisquer que eles sejam. Não herdei a tua gargalhada, essa ficou para a Inês, mas é a minha favorita e será sempre.
Não vou dizer que tenho saudades, isso tu já sabes e hoje não é dia para pensamentos tristes. Fica apenas a nota, uma vez mais, de que é um orgulho e um grande prazer ser filha de uma mulher tão fantástica, tão generosa, tão bem disposta e tão marcante. A vida não foi sempre tao boa contigo como tu foste com ela, mas isso é o que distingue os grandes e os audazes e pelo menos essa força nunca ninguém te tirará.

Tem um dia feliz, Mamã.
De uma filha babadíssima.

Até já!
Ana


segunda-feira, 31 de março de 2014

Tu, Inês.

Está quase no fim mais um dia teu. Se soubesses as saudades que eu tenho de te ouvir contar em decrescente, todos dias, nos três meses que antecedem o 31 de Março! E de organizar as surpresas à meia noite, de ver o teu ar feliz sempre que recebias um presente surpreendente. Acho que nunca conheci ninguém que gostasse tanto de fazer anos como tu. Acho não, desculpa. Tenho a certeza que não há ninguém assim.
Este blog está a tornar-se melancólico. Perdoem-me aqueles que ainda perdem meia dúzia de minutos para "me" ler, mas percebo cada vez mais que é a saudade o sentimento que mais me inspira. Paradoxalmente, é também o sentimento que eu mais detesto, porque é aquele que mais sinto fisicamente e que mais custa a passar. A saudade dói no corpo e na alma.
Mas hoje, como no ano passado, não quero ficar triste neste dia. Hoje quero celebrar, mesmo longe e com dores de saudades, a tua vida, a tua alegria e o orgulho que tenho em ti. Às vezes penso e não sei se tens a verdadeira noção do quanto me inspiras e da quantidade de coisas que eu faço por ti e a pensar em ti. Tenho a certeza que numa outra vida fomos só uma. Nesta dividiram-nos e tu ficaste com a melhor parte. Tens a genica, a alegria de viver, o entusiasmo e o brilho nos olhos da eterna criança que serás, mas vais-te tornando uma mulher fantástica, com garra de "Carneiro" e a coragem de "Leão" que sempre te protege.
Como te disse, muito poucas são as palavras que te posso dedicar. Elas nunca seriam suficientes, por mais que eu tentasse. Já vivemos muitas vidas e muitas mais estarão para vir, onde certamente muitas homenagens haverá a fazer.
A maior de todas, e tu sabes, virá quando eu conseguir finalmente escrever o meu livro, o meu maior sonho. A personagem principal será uma menina-guerreira, sem medos e sem rancores, em cujos olhos só passam lágrimas de alegria. Muitas serão as suas aventuras e muitas as montanhas que terá que escalar. Ainda não sei, porém, como vou conseguir, uma vez mais, transmitir tudo aquilo que tu és, por palavras, por muitas que elas sejam.
Só há uma coisa de que estou certa. No meu livro, como na vida, terás certamente um final muito feliz!

Parabéns miúda!
Até já.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Saudades.

Em dias importantes, como hoje, tenho crises agudas de saudades.

Em dias como hoje, a vontade que tenho é de largar tudo, dizer que não ao futuro planeado e certinho e correr para onde eu queria estar.

Em dias como hoje, eu queria só estar a festejar o teu aniversário contigo, à direita do teu lugar na mesa.
Queria rir-me com as pequenas e cantar as músicas do rádio a caminho de casa, com a minha cantora favorita.

Queria, no espaço de uma mensagem, estar em frente ao mar a comer um McFlurry do McDonalds da praia.

E em dias como amanhã, eu acordaria feliz e teria um abraço gigante de mãe e o colinho que está sempre tão longe.

Em dias como hoje, todas as conquistas parecem pequenas. A maior conquista seria ter isso tudo perto de tudo o resto.

Um beijo de emigrante saudosa a todos os que, de longe, me querem tanto bem!

Até já.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Do tema do momento: a praxe

Em boa verdade, o título deste artigo não está 100% correcto. Este tema é deste momento como já foi de muitos outros momentos. A discussão à volta da praxe é velhinha, velhinha e, como em tudo o que se discute em Portugal, não há meio termo. Só se manifesta quem adora a praxe, considerando que ela fez parte da sua formação enquanto pessoa e que elevou os seus valores de companheirismo, amizade, dádiva, etc., ou então quem a odeia. Este último grupo de pessoas parte geralmente para a generalização gratuita, considerando que toda e qualquer pessoa envolvida neste "ritual secreto e perverso" é, naturalmente, frustrada e mal resolvida ou então, pelo outro lado, tornar-se-á num cidadão sem fibra, subjugado e inútl. 
Pois bem. Como sempre faço, reflecti muito sobre este assunto antes de escrever sobre ele. Li opiniões, artigos, crónicas, dezenas de posts de facebook de ambas as facções e acho-me agora capaz de opinar de forma congruente e (eu sim!) com muito conhecimento de causa.
Para começar com todas as cartas em cima da mesa, faço uma ressalva importante: fui praxada, praxei e adorei esses dois anos da minha vida, embora deva confessar, seja de longe muito mais divertido ser praxado do que praxar. E fi-lo, muita atenção!, porque QUIS. Porque voluntariamente eu quis experimentar a praxe. Nunca ninguém me obrigou a fazer nada e recusei-me inclusivamente a fazer algumas coisas por considerá-las estúpidas. Fui agredida, excluída, insultada? Não. Nunca. 
Facto curioso para todos os Pachecos Pereiras da vida: sou uma pessoa normal, tenho amigos, um bom emprego e boas relações com as pessoas por todos os sítios por onde vou passando. Como eu, tenho dezenas de colegas e amigos. Pessoas bem formadas e educadas que viram na praxe uma excelente oportunidade de se "divertirem à grande" com pessoas que, inicialmente, mal conheciam e que, naquele contexto de brincadeira e à vontade, se foram tornando, de facto, grandes amigos. Nunca me senti humilhada e certamente nunca humilhei ninguém. Nunca maltratei professores e nunca vi isso acontecer da nossa parte. Um dos "meus" caloiros mais activos é hoje em dia Presidente da Associação Académica da Universidade. Continuo amiga de alguns dos meus professores, pessoas de quem retirei ensinamentos para a vida e de quem nunca me esquecerei. Esses mesmos professores viram-me trajada, viram-me a praxar e nunca em momento algum me referiram nenhum tipo de repúdio por nada do que eu tenha feito. 
Quanto ao argumento de a praxe acrescentar ou não alguma coisa à sociedade. Bom, tendo em conta que a Fanny é uma figura pública, esse argumento nem sequer pode ser considerado. 
No entanto, caros leitores (e este no entanto é fundamental!), nem todas as pessoas são como eu, os meus amigos e grande parte dos que me praxaram e que eu praxei. Infelizmente, a praxe é uma tradição mantida por pessoas e como qualquer coisa que dependa de pessoas, ela está sujeita à perda da sua essência com o tempo, à estupidez humana e à falta daquela coisa que dizem que nos distingue dos animaizinhos. É isso, racionalidade. Assim sendo, e como qualquer actividade que envolva pessoas, a praxe pode e DEVE ser regulada e controlada para lá do código de praxe que, convenhamos, em termos humanos regula muito pouco.
Não vale a pena, portanto, na minha opinião, andarmos a tentar colocar as culpas na praxe em si. O problema está nas pessoas, como em tudo na vida! E então são essas pessoas que devem ser punidas, que devem ser impedidas de ter acesso à praxe, que devem pagar pelos erros cometidos. E não a praxe, porque a praxe em si é apenas uma tradição de integração e acolhimento que, na sua génese, nada tem de errado. Como referia hoje o HM no seu artigo do Expresso, há praxe no exército, há praxe em grupos desportivos, há praxe nas escolas secundárias, enfim. A praxe não é exclusivamente uma prática universitária e como tal não lhe podemos colocar todo o peso desta discussão em cima. 
Como ninguém neste momento em Portugal, tirando claro o envolvido, não sei o que aconteceu no Meco. Não sei se os seis estudantes estavam, de facto, em praxe nem se o Dux entrou ou não entrou na água com eles e teve, simplesmente, mais sorte. Não sei sequer se entraram na água ou se a onda os apanhou desprevenidos enquanto bebiam uns copos. Se entraram na água em praxe, contudo, a culpa não será certamente do Dux, uma vez que eles eram todos praxantes, adultos e voluntários. Não sei nada e ninguém sabe nada, embora andemos todos armados em Polícia Judiciária, faltando ao respeito à memória dos seis miúdos que perderam a vida, às suas famílias e ao sétimo rapaz que todos agora tratamos por Dux, mas que tem um nome, uma família e perdeu seis amigos num acidente terrível. 
Só há uma coisa que sei no seguimento daquilo que escrevi anteriormente. Não é suposto utilizar a praxe para actividades que colocam vidas em risco, ao fim de semana e na praia com a costa portuguesa em alerta vermelho. E neste sentido, todos os envolvidos são responsáveis, praxantes e praxados, tendo tido, infelizmente, a maior punição possível. 
Agora, se mesmo depois desta terrível lição, os estudantes da Lusófona e de outras semelhantes, continuam a achar-se no direito de prosseguir com este tipo de actividades arriscadas e de ainda por cima não falarem sobre elas, passando por cima de todos os limites da dignidade humana, meus amigos, que se lixe a praxe. Se é impossível regular as atividades praxísticas de um modo que vá para além do código de praxe e se é impossível controlar a estupidez humana de modo a evitar que outras tragédias aconteçam, que se lixe a praxe. Até porque, como sempre dizíamos:  "quando um faz m****, todos fazemos m****". 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Cabo Verde. Terra de nha cretchéu.

Os meses e os anos vão passando e eu vou-me apaixonando. Por novos lugares, novos países, novas sensações, novos povos. O ano foi virado em Cabo Verde. Tempo quente como corolário de um ano cheinho de calor no coração. 2013 foi generoso comigo (só para me contrariar quando digo que os anos ímpares nunca são tão bons) e terminou em festa, com muitos sorrisos, um beijo apaixonado e um brinde cheio de promessas para os novos anos que nos esperam.
Mas 2014 entrou melhor ainda. Para quem nunca teve a oportunidade de conhecer a ilha de S. Vicente e particularmente a pequena cidade do Mindelo, por favor, façam-no. Há lugares neste mundo que, sem percebermos muito bem porquê, nos cativam de uma forma singular e especial. São aqueles lugares que nos aquecem o coração quando nos lembramos deles. O Mindelo é um desses.
Sendo uma pequeníssima vila (ou cidade) de pescadores, não deixa adivinhar à primeira vista, o maravilhoso calor humano, musical e cultural que esconde. Terra natal de Cesária Évora, o Mindelo vive de música, de animação, de sorrisos sinceramente felizes, de pessoas que, não tendo nada, têm tudo. Enquanto dançávamos na rua pela madrugada fora ao som de conhecidos intérpretes cabo-verdianos, entre eles Tito Paris, um dos milhares de mindelenses em festa perguntou-nos de onde éramos. Quando ouviu "Portugal", a sua resposta trouxe-me lágrimas: "Cabo Verde é Portugal. Somos povos irmãos". Os mindelenses provaram-me, uma vez mais, que a generosidade de quem nada tem não conhece limites (só no caso destes, os limites aos horários, à eficiência, à rapidez, e afins, o que num contexto de férias não nos pareceu assim tão mal!).
Santo Antão foi a segunda ilha de passagem e mostrou-nos paisagens que, sinceramente, nunca imaginei que existissem em Cabo Verde. A verdade é que nunca pensei que estas ilhas fossem, de facto, tão verdes e tão esplendorosas. Vales imensos a perder de vista, o corropio dos camponeses e a fome de terra dos pescadores. Mas o mar, esse que tanto me diz, sempre de fundo em tudo o que íamos fazendo.
E finalmente, Santiago, a ilha grande, a capital. A Praia é essa já uma cidade com tudo de bom e de mau que isso traz. Ali sente-se já um bocadinho mais o síndroma das cidades que vão crescendo, a impessoalidade dos gestos, os grupos mais reduzidos, o movimento das ruas. Mas o desejo de mar continua lá, a preguiça dos dias de sol, a alegria de quem parece viver eternamente de férias.
Saindo da Cidade da Praia, no entanto, tudo volta a ser como num documentário sobre lugares remotos do nosso planeta. Cheios de sede de aventura e vontade de explorar mais e mais, passámos pela pequena cidade da Assomada, onde fomos o centro das atenções, por vilas pequenas como S. Jorge e subimos ao pico do Boca Larga, onde pela primeira vez senti que chegara ao ponto último onde a terra se encontra com o paraíso. No Boca Larga ainda não há agua canalizada nem luz elétrica. A crianças brincam na rua e os seus melhores amigos são os animais do campo. Com muita certeza posso dizer que nunca vi crianças mais bonitas em nenhuma parte do mundo. Aliás, voltei com a suspeita de que o povo cabo-verdiano está no top 3 dos povos mais bonitos que habitam a terra. Ao fim de mais algumas viagens, poderei ter certezas mais concretas.
Assim fica mais um bocadinho de coração em pleno Oceano Atlântico, desta vez não em uma mas em várias ilhas, também elas, muito verdes. Ilhas de nha cretchéu, de simplicidade e harmonia. De cores, sabores, de um sol imenso e um mar turquesa a perder de vista.

Até já.


quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Dos lugares que também nos fazem.

Quando penso no que tem sido a minha vida ao longos destes tantos e tão poucos 24 anos, penso muito não só nas pessoas que me foram, de uma forma ou de outra, tornando na pessoa que hoje sou, mas também em todos os lugares por onde passei e por onde ainda passarei. E quanto mais penso, mais concluo que os lugares são, sem dúvida, fundamentais na nossa definição enquanto pessoas e, tal como as pessoas, eles perduram em nós. O cheiro, os ruídos, os silêncios, a solidão profunda ou a alegria de um grupo de amigos, as rotinas e os hábitos que mudam sempre de lugar para lugar. Trago todos os lugares por onde tenho passado no coração e não são raras as vezes em que alguma coisa me faz lembrar deles.
O ruído do elétrico lembra-me o Porto, a cidade que me viu nascer, a Igreja do Carmo e a minha avó a passear-me orgulhosa ao Domingo de manhã. O som do mar traz-me à lembrança Matosinhos, onde cresci e me fiz mulher e para onde voa o meu coração sempre que a saudade aperta. Foi provavelmente lá que mais chorei em toda a minha vida, mas também foi de certeza onde mais vezes aqueci o coração.
Saudade é também a palavra que me leva a Braga. Braga tem uma magia especial, uma luz própria que é difícil de encontrar numa cidade, por maior que seja. Braga viu-me crescer de várias maneiras, viu-me criar sonhos e correr atrás deles. Braga deu-me amigos que nenhum lugar nunca apagará.
Bolonha é o pôr-do-sol. Ah, se é! Cidade das cores do fogo, do cappuccino e do Inverno a sério. A lembrança que me traz cheiro da pizza saída do forno nunca será substituída por nenhuma outra, como nunca o será ouvir a "Aqui ao Luar" dos Xutos.
Guimarães foi, provavelmente, a cidade onde mais me senti sozinha, por mais pessoas fantásticas que tivesse à minha volta. Mas nunca me esquecerei da sensação fantástica de conduzir à deriva ao som do oceano pacífico da RFM, e do conforto do regresso a casa ao fim de semana. Guimarães ensinou-me a gostar da minha própria companhia, a desfrutar de verdadeiros momentos de silêncio em que só as páginas do meu livro faziam algum ruído. 
E depois Dublin. Esta cidade cinzenta, chuvosa e fria que foi a maior surpresa de todas. Dublin é chuva, mas também é brunch ao Domingo de manhã. É frio, mas também é música nas ruas e pessoas felizes. É sair do trabalho e ouvir alguém a tocar gaita de foles de forma sublime. É mudança e um futuro risonho. Para onde quer que vá, será sempre a cidade onde mais amei.

E, depois de tudo, no fundo todos estes lugares são as pessoas com quem os partilhei, que tanto me deram e por isso nunca partiram, nem partirão alguma vez. 

O bom de mudar de sítio muitas vezes é perceber que o meu coração é suficientemente grande para deixar pedaços enormes por onde quer que passe.

Até já.


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Amo-te.

O melhor da vida é sentirmo-nos amados. Por aqueles que amamos e, não sejamos hipócritas, por outros também. Mas foquemo-nos no amor recíproco. Esse amor que nos faz bem, que nos cola um sorriso nos lábios ao acordar e que nos faz adormecer com o coração mais quentinho do que os pés.

Quando nascemos e durante a nossa infância, amor é tudo aquilo de que necessitamos para ser felizes. A certeza de que há ali uma figura de referência, seja uma mãe, um pai, um avô, uma avó, um tio, uma tia, que nos ama incondicionalmente, nos protege e assegura o nosso bem-estar emocional é, talvez mas não suficiente, mas fundamental para nos formarmos seres humanos capazes e competentes.

Nessa altura, a nossa própria capacidade de amar é muito maior do que em qualquer outra fase da vida. Encontramos nas pessoas que nos acompanham, os nossos heróis favoritos e vibramos com as gargalhadas deles, da mesma forma que sofremos com as suas lágrimas. O amor é uma coisa simples. Basta receber tudo de bom e o mesmo retribuiremos. "Filho és, pai serás", sempre ouvi dizer.

O problema é que quando crescemos, este amor absoluto parece, de repente, relativizar-se. Já não queremos dar tudo, porque há algo que deve sempre ficar para nós. E na verdade já não podemos dar tudo, porque não temos tempo. Amamos muitas outras coisas, de repente. Amamos o nosso trabalho, amamos a nova cidade onde vivemos, amamos os novos amigos que vão surgindo, amamos os outros que sempre vão ficando, amamos um novo alguém na nossa vida.

Aflige-me então que já não possamos dar tudo sempre, como acontecia antes. Aflige-me a aversão que temos ao uso de um "amo-te", sobretudo às pessoas que estão na nossa vida desde o início. Aflige-me as opções que vamos tomando e que nos roubam momentos que nunca saberemos se voltam. Tornamo-nos muitas vezes egoístas, porque sabemos que precisamos de amor em determinado momento, mas esquecemo-nos de perguntar se a pessoa que nos abraça não precisa, também ela de chorar, ou de rir muito até doer a barriga. Esquecemo-nos de dizer "obrigada por estares aqui". Forçamos o esquecimento daquele "amo-te" que nós próprios tanto gostamos de ouvir.

Por não saber por quanto tempo o poderei fazer, faço questão de amar muito, por palavras e actos, todos aqueles que durante toda a minha vida tanto me deram. Faço questão de dizer aos meus pais, às minhas três irmãs, aos meus avós, aos meus amigos, amigas e ao meu namorado, o quanto eles são fundamentais para o meu equilíbrio. O quanto a felicidade deles faz parte da minha também. O quanto a sua presença me falta.

Que nunca nos falte um "amo-te", um "gosto muito de ti" ou um "tenho saudades tuas".
Ainda por cima temos o privilégio de o poder dizer em Português.

Com amor,
Até já.

domingo, 20 de outubro de 2013

O outro lado da emigração.

Desde que deixei Portugal, há um ano e meio sensivelmente, o tema da emigração jovem tem feito cada vez mais furor. Duvido que ainda reste alguém em Portugal que não tenha pelo menos uma pessoa próxima a viver fora do país: um filho, um amigo, um irmão, um neto. Somo-lo todos nós e sabemos bem o peso que isso acarreta.
Não acredito, no entanto, que a questão da emigração seja, sempre, abordada da forma mais correcta. Acredito mais depressa que seja abordada pelo lado mais fácil, mais mediático e mais sensível para qualquer um de nós: a dor de partir, a saudade, a coragem, a cobardia, o fugir, o enfrentar, enfim, toda uma panóplia de termos que parecem andar de mãos dadas com todos nós que tomámos a decisão de sair e com todos os "nossos" que ficaram.
Apesar de não negar nem querer ignorar de nenhuma forma o peso emocional e as consequências demográficas e económicas para o nosso país que esta vaga de emigração jovem traz e trará em anos não muito distantes, julgo que está na hora de olharmos para o fenómeno por um lado menos negativista e menos pesado. 
Por que não substituir as expressões "coragem" ou "fuga" por "sucesso" e "conquista"? Por que não pensar naqueles que deixam o país como "os que encontraram alternativas mais satisfatórias e realizadoras", ao invés de encará-los como "os que, coitadinhos, deixam o país porque a sua vida era absolutamente miserável e nunca poderiam ser felizes no seu Portugal?". Bem sei, bem sei, nem todos os casos de emigração são casos de sucesso. Mas há muitos, imensos até, que o são e isso prova, mais do que a falta de oportunidades que há em Portugal, o quão bons são estes lusitanos que se aventuram além fronteiras! 
Por outro lado, os que ficam em Portugal, são também muitas vezes vistos de duas formas distintas. Para uns, são os coitadinhos sem coragem, cujas vidas estão condenadas ao fracasso num país que nada mais tem para oferecer do que precariedade e desemprego. Para outros, os que decidem não sair são os resistentes, os bravos que se mantém e que lutam por uma pátria em decadência. Para mim, os que ficam são tão pessoas e tão tudo o resto, como todos aqueles que saem. O seu único pecado (ou virtude!) é terem feito outras escolhas, terem outras prioridades.
A chave está, na minha opinião, em olharmos para tudo isto de uma forma mais otimista e em assumirmos que a emigração de hoje em dia (embora de consequências futuras inegavelmente nefastas!) é radicalmente diferente daquela que se praticava há quatro ou cinco décadas. Nós já não somos os emigrantes da mala de cartão, mas também não fugimos nem perdemos afectos nem nos esquecemos do quanto é bom ser Português. 
Mesmo que tudo o resto falte, nunca nos tirarão os dias de sol no Inverno, o bacalhau com natas ou o Fado. Esse Fado que, em qualquer parte do Mundo, viverá eternamente connosco.

sábado, 12 de outubro de 2013

Tu, sim, Malala.

Mais uma vez o Nobel da Paz foi entregue a uma organização. Mas ele deveria ser teu, Malala, e por isso escrevo esta pequena crónica.

Não quero, de modo algum, desvalorizar o papel que organizações como a da Proibição para o Uso de Armas Químicas ou a União Europeia tiveram para a preservação da paz mundial em momentos específicos fundamentais da nossa história. As duas grandes guerras foram efetivamente períodos horrendos e aterrorizantes e o papel destas organizações na re-pacificação da Europa e do Mundo não deve ser minimamente desvalorizado.

O que me incomoda é que, nos dias de hoje, já nem comités de tão alto gabarito como o da atribuição do Nobel da Paz pareçam ser capazes de desempenhar as suas funções longe dos interesses políticos e estratégicos das grandes, pequenas e médias potências. O Obama precisa de ser visto como o novo fôlego na credibilização da política externa norte-americana, ganha o Nobel da Paz. A UE está em crise, damos-lhe o Nobel da Paz. É preciso que alguém legitime uma intervenção na Síria, tomem lá o Nobel da Paz.

Ainda mais, no entanto, me incomoda pensar que esta organização que ganha agora o prémio máximo do reconhecimento pelos esforços para a paz mundial é financiada por algumas das mesmas entidades que, ao mesmo tempo, financiam a existência e a persistência da existência de armas químicas, ou não químicas - isso será o menos relevante neste contexto, se levarmos em consideração que PAZ é geralmente definida como um estado de calma ou tranquilidade, uma ausência de perturbações e agitação. Derivada do latim Pacem = Absentia Belli, pode referir-se à ausência de violência ou guerra (Wikipedia).

E por isso é que eu acho que tu, Malala, tu merecias o Nobel da Paz. O prémio principal e não apenas o Sakharov de consolação.

Porque tu és apenas tu e a tua voz e a tua coragem. Tu falas de uma solução absolutamente pacífica e de consequências magnânimes a longo prazo. Também eu acredito que a educação é o caminho para um mundo mais igualitário e mais justo, sem armas químicas, mas também sem discriminação, sem fanatismos religiosos ou políticos, sem a opressão das minorias.

Mas há, para além de tudo isto, outra coisa em que eu acredito. Eu acredito que a nossa geração precisa de exemplos como tu, Malala. A nossa geração precisa de acreditar em muito mais do que nas organizações e nas elites políticas e financeiras que nos (des)governam.

Nós precisamos de acreditar nas pessoas. Nas boas pessoas e nos seus sonhos, na sua coragem. Só essas, como tu Malala, têm o verdadeiro poder de transformar o Mundo num lugar melhor.



terça-feira, 10 de setembro de 2013

Dare to dream.

Quanto mais coisas me acontecem, menos escrevo. Devia ser ao contrário, não é? Quanto mais coisas tenho para contar, mais quero escrever, de outro modo a existência deste blog perde o sentido. Adiante.

Esta Irlanda fria e tantas vezes monótona tem trazido à minha vida um rumo que nem nos meus sonhos menos modestos eu imaginei. Ainda hoje estava a pensar que gostava de escolher um moto para a minha vida. Só porque as palavras são uma das minhas grandes paixões e porque uma frase bem escolhida pode significar muito mais do que todos os textos que eu possa colocar aqui. Não que eu ache que ter um moto mude alguma coisa ou contribua de alguma forma para a optimização do meu branding pessoal. Nem sequer estou muito preocupada com isso. Gosto destas coisas, pronto.

E então escolhi-o: Dare to dream.

Sempre sonhei muito, a dormir e acordada. Durante algum tempo debati-me com a minha vida e com as minhas emoções porque, tendo tudo, não era feliz. Os meus sonhos eram sempre muito maiores, muito para lá do real e, lá no fundo, nem eu nunca acreditei que eles se pudessem realizar. Hoje é diferente. Hoje acredito.

Não que os meus sonhos estejam todos realizados. Oh! Que sentido teria a minha vida agora? E também não se dá o caso de eu ser totalmente feliz e realizada - se fosse, para quê sonhar? O que está diferente agora é que perdi o medo de sonhar e de sonhar cada vez mais alto. E também perdi o medo de abdicar. E de arriscar. Hoje talvez perca, hoje talvez me arrependa. Amanhã ganharei, amanhã saberei que houve um sentido qualquer para a minha decisão. Ou para o meu impulso! E se não houver... bem, se não houver terei consciência de que, pelo menos, ousei sonhar. E também de que, certamente o voltarei a fazer.

E assim tenho vivido os dois últimos anos da minha vida. De sonho em sonho, de conquista em conquista.

Pelo caminho vou perdendo outras coisas. Vou abdicando delas. De conversas, de pequenas conquistas dos outros que não minhas (apercebo-me também que este caminho traz um lado egoísta obrigatório, mas doloroso de cada vez que penso nele!), de histórias a que já não pertenço, até de algumas amizades, porque isto da distância não perdoa.

Ainda assim eu arrisco. E ouso sonhar!

Até ja!

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Mulheres.

Venho de uma família de mulheres. Mulheres que, fui percebendo e saboreando ao longo dos anos, são deliciosamente imprescindíveis na vida dos seus homens. Filhos, maridos, pais. Na minha família as mulheres são força e carregam o mundo nas costas com um sorriso e boa disposição.

Penso todos os dias na maravilhosa oportunidade que a vida me vai dando de ter quatro avós, saudáveis, bem dispostos e maravilhosos. E penso ainda mais em como é fantástico que eles, os nossos patriarcas, continuem apaixonados por elas, as verdadeiras forças motrizes da família. Vê-se no olhar e sente-se nos gestos que o amor, a gentileza, a delicadeza nunca diminuiu com os anos. Amadureceu e ganhou contornos rotineiros que a eles lhes sabem bem e que os fazem felizes diariamente. 50 anos depois, as minhas avós ainda são mimadas com comidinhas especiais, cházinhos tardios na cama, flores e prendas inesperadas. E nunca são deixadas de lado na hora em que eles tomam decisões. A palavra delas é fundamental, indispensável e, muitas vezes, final.

O meu pai, enorme apreciador de mulheres pois claro, tem nada menos do que três filhas, porque três é a conta que Deus fez. E ele admira, respeita, ama e deixa-se levar pelas mulheres da sua vida. O meu pai, mais do que ninguém, sabe o quão importante é a sensibilidade, a curiosidade e o sentido oportunidade feminino e por isso ama, respeita e recorda com carinho todas as mulheres da sua vida, mesmo as que o foram numa vida que já não existe.

E depois há a minha mãe, que não tem par e não se pode comparar. A minha mãe personifica a coragem, mas também a sensibilidade, a determinação mas também a capacidade de perdoar, a firmeza mas também a inteligência de voltar atrás e reconhecer um erro. Sendo a minha melhor amiga, foi sempre, e mais do que tudo, Mãe em primeiro lugar. Devo-lhe a vida e muito mais do que isso.

Devo a todas as mulheres da minha família o orgulho de fazer parte deste clã feminino. E devo-lhes uma, ou muitas, palavras de admiração e de agradecimento.

E claro, aos nossos homens, pais, filhos, avós e tios, por nos manterem apaixonadas e por nos fazerem sentir, todos os dias, que os dias sem nós seriam bastante mais aborrecidos.

Um abraço gigante à família maravilhosa que tenho.
E agora sim.
Até já!

sexta-feira, 24 de maio de 2013

"Uma letra apenas e o mar fica maior".

O amor mais importante que trazemos connosco é o amor próprio. Só ele nos consegue fazer ver para lá de nós próprios, aceitar o que somos e não querer ser o que não somos. E só ele nos permite amar verdadeiramente outra pessoa. À medida que aumenta, o amor por nós mesmos leva-nos as inseguranças e os medos e ajuda-nos a viver com mais tranquilidade. 
O problema é que nós, humanos, seres de contradições e paradoxos, precisamos dessa insegurança para sermos inteiros. Passamos a vida a falar em "viver o presente" porque vivemos atormentados com a perspetiva do futuro. O futuro é incerteza e é nele que vivemos sempre. O presente é demasiado efémero e um minuto depois já desapareceu.
E então amarmo-nos implica que tenhamos (alguma) certeza de que somos o que queremos ser neste instante, neste momento. Lemos um bom livro, ouvimos um bom disco, fumamos um cigarro e sabemos que nos amamos, que somos felizes connosco próprios e que, neste instante, nesta noite, nada pode abalar o conforto da nossa própria companhia.
Mas depois há o amar os outros. E esse amor já não é (por muito que queiramos convencer-nos que sim) vivido só no presente, neste instante, nesta noite. Esse amor é vivido já no futuro porque queremos que ele seja de futuro. Quando amamos, desejamos com todo o nosso ser que o outro nos ame agora mas nos ame também numa realidade ainda distante (que pode ser já amanhã). E essa incerteza do que está para lá desta noite é o que nos desassossega e o que dá cor e sentido à nossa vida. O amor por nós próprios é o nosso calmante natural. Pelo menos hoje tenho a minha companhia e isso faz-me feliz. Mas sei que amanhã te quero aqui e que o meu desassossego te vai pedir para nunca mais ires embora.

Se te amares como eu te amo e se me amares como eu me amo, então sei que a combinação entre o desassossego do espiríto e a tranquilidade de um abraço será sempre deliciosa como tem sido até aqui. 

Voa e voa mais alto. 
Só uma louca não voaria contigo.
E louca, eu não sou.

Até já.
Tua.


quarta-feira, 22 de maio de 2013

Menos discurso e mais acção, Portugal.

Não costumo escrever crónicas de opinião, é verdade. E não é porque não tenho opiniðes. Eu sou aquele irritante tipo de pessoa que acha sempre qualquer coisinha sobre tudo, mesmo que não perceba grande coisa sobre o assunto. E na minha ânsia de saber tudo, às vezes também faço figura de parva. Mas adiante.

Não escrevo sobre este tipo de assuntos, porque a minha paixão pela escrita advém precisamente da capacidade que só ela tem de me transportar para outras (i)rrealidades. Gosto de escrever para ser mais feliz e para fazer os outros mais felizes, porque de infelicidades e agonias os jornais já nos enchem todos os dias.

De qualquer modo, hoje apraz-me dizer algo, ou melhor, questionar-me sobre algo que realmente me tem preocupado no meu país e nos meus compatriotas. Esta crise tem acentuado o nosso afamado Sebastianismo e está, arrisco-me a dizer, a tornar-nos ridículos. Ou então está tudo a ficar doido mesmo.
Precisamos desesperadamente de um herói. E de um mártir, pois claro.

Há umas semanas, o Miguel Gonçalves ia salvar a pátria para uns e enterrar o que resta do nosso jardim à beira mar plantado, para outros. Esta semana, um miúdo de 16 anos que ninguém sabe de onde saiu torna-se buzz nas redes sociais, domina todas as conversas e ainda consegue a proeza de passar de bestial a besta em 24 horas. A tal investigadora Raquel faz o percurso inverso no mesmo espaço de tempo.

A crise está a toldar-nos o raciocinio e o pensamento critico não está?

O amor/ódio pelo Miguel, pelo Martim e pela Raquel é bem revelador do nosso desespero. As próprias figuras são o espelho dessa realidade. Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. Ora pois.

O Miguel trata os desempregados como um gado uniforme que não gosta de trabalhar e que está desempregado porque quer. O Miguel também diz que em Portugal há lugar para todos e sabemos bem (eu sei-o bem) que não é verdade. E o Miguel tem um discurso presunçoso que, convenhamos, é irritante.

Mas o Miguel também incita ao esforço pessoal para se atingirem metas, toca na ferida das licenciaturas, mestrados e por aí fora e defende a ideia de que infelizmente nem todos somos bons naquilo que gostaríamos (tendo por isso que, inevitavelmente, trabalhar o dobro e descobrir qual afinal é a nossa vocação) e é direto ao ponto de nos dizer que estamos na era em que cada um deve, por si próprio, arranjar uma solução. Ponto.

Em todo o caso, uma coisa é certa. Os discursos e as expressões carismáticas do Miguel, por si só, não mudam nada.

Quanto ao Martim e à Raquel, se pensarmos bem aquela troca de palavras não acrescenta absolutamente nada. É óbvio que o ordenado mínimo português é ridículo e que ninguém vive condignamente com menos de 500 euros. É óbvio também que a investigadora Raquel não se calou porque o menino é a última coca-cola do deserto e demonstrou uma sabedoria fora do comum que a arrebatou imediatamente. E sim, levanta-se um debate importante e fundamental na sociedade portuguesa que muitas vezes é discutido com uma leveza que me agonia.

Mas vamos agora crucificar o Martim, que tanto ainda tem para aprender e que claramente deu a resposta que mais depressa lhe veio à cabeça porque é um adolescente de 16 anos cheio de sangue na guelra? E ainda por cima, não é também verdade que, em paralelo com o problema do salário minimo, temos um flagelo de desempregados a engrossar as fileiras para os pedidos de apoios sociais?

Eu acredito piamente que devemos lutar pelos nossos direitos. E faço-o todos os dias, à minha maneira,  porque quero um dia que os meus filhos sintam orgulho nas suas origens portuguesas.

Mas, por favor. Não é de heróis nem de mártires que Portugal precisa. E claramente nenhuma das três pessoas mencionadas tem estaleca para o ser.

Nós precisamos, Portugal, é de quem fale menos e faça mais.

Até já,
Ana.



domingo, 19 de maio de 2013

Quando decobrimos o que há para lá do Mare Nostrum...

Uma vez que não posso tolerar a possibilidade de ser apelidada de info excluida ou anti-digitalmente-social, tenho que escrever um pequeno artigo sobre a minha recente viagem à Tunísia. As fotos, essas claro, já estão publicadas em local devido.

Agora a sério. Faço questão de escrever sobre esta viagem porque foi, mais do que uma semana de férias, uma experiência inesquecível. De entre muitas que tenho tido desde que a minha vida mudou tão radicalmente no dia 4 de Maio de 2012.

A Tunísia é o país mais pequeno do norte de África e tem aproximadamente a mesma população que Portugal. Factos chatos à parte, um país e um povo absolutamente deliciosos. Apaixonei-me várias vezes durante a viagem e fiquei com uma vontade imensa de explorar outros países africanos, onde a simplicidade parece ser tantas vezes sinónimo de felicidade. 

Assim que aterrámos em Tunis, percebi que estava numa dimensão radicalmente diferente de tudo o que já conhecia. É preciso frisar que esta foi a primeira vez que saí da Europa pelo que, estando tão verdinha nestas andanças, foi um choque para mim a competição cerrada entre os taxistas para cativarem um jovem casal de turistas a viajar no seu automóvel, o proprio automóvel que não está nem perto dos taxis confortáveis e bonitos a que tão complacentemente nos habituámos no "mundo desenvolvido", as ruas e a (des)organização de toda uma cidade que, ainda por cima, e a capital do país. Maravilhoso!

Não há espaço para carros, peões, bicicletas e outros veículos. Todos coexistem numa grande barafunda de sons e movimentos em que quem não conhece é como quem não vê. Não existem regras e quem olha para os semáforos é  daltónico. As rotundas fazem-se pela direita, mas se o senhor da mota a quiser fazer pela esquerda também pode ser. E os peões, esses podem optar entre caminhar pelo passeio ou pelo meio da estrada. Não há limites, o importante é chegar ao destimo que, muitas vezes, nem sequer existe na verdade. 

O combóio não chega ao final da linha. Não existem razões, não é preciso. O combóio pára, muda-se para o autocarro, ainda se volta para o combóio e o trajecto pode muito bem terminar de novo num autocarro que, claro, transporta muito mais pessoas do que a sua capacidade pressupõe. 

A comida tunisina, tal como as pessoas, é deliciosa, simpática, colorida e generosa. Não gosto do lugar comum e facil que assume que todos os magrebinos vivem para vender coisas de que ninguém precisa e enganar o turista. Não é verdade. Tentaram vender-me coisas com a facilidade com que me ajudaram. E mesmo quando me pediram dinheiro, ofereceram algo em troca: um tour pela medina, a visita a uma varanda com a melhor vista sobre a cidade, o lugar correcto no combóio e outras coisas afins. 

Adorei as praias e o mar (sobretudo porque tinha muitas saudades deles, uma vez que na verdade não são praias paradisiacas e, no geral, considero que em Portugal temos praias bem melhores), mas o expoente máximo da viagem foi indubitavelmente o Sahara. Enorme, vasto, muito quente e de uma tranquilidade inigualável. Nunca em toda a minha vida vi um céu tão bonito. Nunca ouvi um silencio tão profundo e tão reconfortante. 

E contactar com pessoas que, de facto, vivem em pleno deserto é incomparável. 
Somos minúsculos neste mundo tão grande. E que fantástica sensação é essa!

Aconselho a quem goste de viajar e ainda não teve a curiosidade suficiente para conhecer a Tunísia.
Mas, por favor, nao façam como os 7 milhoes de turistas que lá vão anualmente e saiam do resort. Vale mesmo muito a pena!

Entre tudo isto, passou um ano desde que cheguei à Irlanda. A única certeza que tenho é de que, quando cá cheguei, não podia imaginar que um ano depois escreveria algo parecido com este texto.

You'll only catch your dreams if you follow them!

Ate já,
Ana

segunda-feira, 1 de abril de 2013

To my first and greatest love.

A Inês nasceu a 31 de Março de 93. Branquinha, de olhos verdes e de sorriso fácil desde o primeiro minuto de vida. A Inês foi o meu primeiro grande amor.

Em criança irritavam-me as bonecas. Nunca gostei de coisas que fizessem exatamente e apenas aquilo que eu queria. Sou de desafios, sempre fui. E a Inês foi sempre o meu maior desafio, porque já nasceu com a personalidade dos grandes, a bravura dos audazes, a coragem dos fortes. Ela nunca fez o que eu queria, como as minhas bonecas faziam. Ela brincava comigo, era a minha boneca e a minha companhia favorita. Desde que não fosse tudo como eu queria . Sem saber ainda falar, ela afirmava-se com o olhar.

A Inês sempre foi a unica pessoa capaz de me fazer confrontar as minhas fraquezas e os meus receios sem precisar de falar. Crescer com ela foi sempre e continuamente um processo de evolução pessoal também. Só ela conseguiu sempre fazer-me colocar toda a minha vida em perspetiva e perceber que ser Pessoa é muito mais do que estar neste mundo, viver este momento, ter uma rotina estabelecida, alcançar os objetivos pretendidos e tentar ser feliz no meio disto tudo.

Ser Pessoa, ser Humano é ser diferente, é ser irreverente, é ser único e ser feliz assim.

Foi a Inês que me ensinou a ver a beleza de tudo o que destoa da realidade a que supostamente devemos estar habituados. Quando ela nasceu já trazia uma aura diferente, uma força  especial incomum e característica de quem nasceu para vencer.

A Inês é uma vencedora. E como todos os vencedores, ri muito e muito faz rir quem por privilégio passa na sua vida. Como todos os verdadeiros vencedores, não se vangloria pelas suas vitorias diárias e constantes.  Antes, partilha-as com todos aqueles que direta ou indiretamente a ajudaram a vencer. Partilha-as sob a forma de amor, de generosidade, de humildade e de alegria. Para a Inês ver os outros felizes é sinónimo de ser feliz, ela própria.

A Inês é o grande amor da minha vida, a outra metade de mim.

A Inês fez 20 anos ontem e eu não a pude abracar. Mas ela sabe que não é preciso, porque onde eu estou ela está comigo, onde ela está eu estou com ela.

Parabéns piolho! <3

terça-feira, 26 de março de 2013

Março, mês de saudades.

Março.
Saudades.
Neve.
Frio.
Saudades.
Tudo ao contrário.
Primavera.
Inverno.
Eu ai.
Vocês aqui.
E saudades.
Abraçar-te.
Abraçar-vos.
Hoje. Tinha que ser hoje.
Melancolia.
Não estou aí.
Alegria.
Já são 25! E continuas aqui.
Comigo e sempre.
Que saudades!

Parabéns minha grande amiga, companheira de aventuras, ombro constante e eterno.
Ainda que longe, "grilo" da minha consciência, abrigo seguro e sereno.
O teu sorriso faz falta aos meus dias.

Friends are really like brothers you can choose.
*