Em boa verdade, o título deste artigo não está 100% correcto. Este tema é deste momento como já foi de muitos outros momentos. A discussão à volta da praxe é velhinha, velhinha e, como em tudo o que se discute em Portugal, não há meio termo. Só se manifesta quem adora a praxe, considerando que ela fez parte da sua formação enquanto pessoa e que elevou os seus valores de companheirismo, amizade, dádiva, etc., ou então quem a odeia. Este último grupo de pessoas parte geralmente para a generalização gratuita, considerando que toda e qualquer pessoa envolvida neste "ritual secreto e perverso" é, naturalmente, frustrada e mal resolvida ou então, pelo outro lado, tornar-se-á num cidadão sem fibra, subjugado e inútl.
Pois bem. Como sempre faço, reflecti muito sobre este assunto antes de escrever sobre ele. Li opiniões, artigos, crónicas, dezenas de posts de facebook de ambas as facções e acho-me agora capaz de opinar de forma congruente e (eu sim!) com muito conhecimento de causa.
Para começar com todas as cartas em cima da mesa, faço uma ressalva importante: fui praxada, praxei e adorei esses dois anos da minha vida, embora deva confessar, seja de longe muito mais divertido ser praxado do que praxar. E fi-lo, muita atenção!, porque QUIS. Porque voluntariamente eu quis experimentar a praxe. Nunca ninguém me obrigou a fazer nada e recusei-me inclusivamente a fazer algumas coisas por considerá-las estúpidas. Fui agredida, excluída, insultada? Não. Nunca.
Facto curioso para todos os Pachecos Pereiras da vida: sou uma pessoa normal, tenho amigos, um bom emprego e boas relações com as pessoas por todos os sítios por onde vou passando. Como eu, tenho dezenas de colegas e amigos. Pessoas bem formadas e educadas que viram na praxe uma excelente oportunidade de se "divertirem à grande" com pessoas que, inicialmente, mal conheciam e que, naquele contexto de brincadeira e à vontade, se foram tornando, de facto, grandes amigos. Nunca me senti humilhada e certamente nunca humilhei ninguém. Nunca maltratei professores e nunca vi isso acontecer da nossa parte. Um dos "meus" caloiros mais activos é hoje em dia Presidente da Associação Académica da Universidade. Continuo amiga de alguns dos meus professores, pessoas de quem retirei ensinamentos para a vida e de quem nunca me esquecerei. Esses mesmos professores viram-me trajada, viram-me a praxar e nunca em momento algum me referiram nenhum tipo de repúdio por nada do que eu tenha feito.
Quanto ao argumento de a praxe acrescentar ou não alguma coisa à sociedade. Bom, tendo em conta que a Fanny é uma figura pública, esse argumento nem sequer pode ser considerado.
No entanto, caros leitores (e este no entanto é fundamental!), nem todas as pessoas são como eu, os meus amigos e grande parte dos que me praxaram e que eu praxei. Infelizmente, a praxe é uma tradição mantida por pessoas e como qualquer coisa que dependa de pessoas, ela está sujeita à perda da sua essência com o tempo, à estupidez humana e à falta daquela coisa que dizem que nos distingue dos animaizinhos. É isso, racionalidade. Assim sendo, e como qualquer actividade que envolva pessoas, a praxe pode e DEVE ser regulada e controlada para lá do código de praxe que, convenhamos, em termos humanos regula muito pouco.
Não vale a pena, portanto, na minha opinião, andarmos a tentar colocar as culpas na praxe em si. O problema está nas pessoas, como em tudo na vida! E então são essas pessoas que devem ser punidas, que devem ser impedidas de ter acesso à praxe, que devem pagar pelos erros cometidos. E não a praxe, porque a praxe em si é apenas uma tradição de integração e acolhimento que, na sua génese, nada tem de errado. Como referia hoje o HM no seu artigo do Expresso, há praxe no exército, há praxe em grupos desportivos, há praxe nas escolas secundárias, enfim. A praxe não é exclusivamente uma prática universitária e como tal não lhe podemos colocar todo o peso desta discussão em cima.
Como ninguém neste momento em Portugal, tirando claro o envolvido, não sei o que aconteceu no Meco. Não sei se os seis estudantes estavam, de facto, em praxe nem se o Dux entrou ou não entrou na água com eles e teve, simplesmente, mais sorte. Não sei sequer se entraram na água ou se a onda os apanhou desprevenidos enquanto bebiam uns copos. Se entraram na água em praxe, contudo, a culpa não será certamente do Dux, uma vez que eles eram todos praxantes, adultos e voluntários. Não sei nada e ninguém sabe nada, embora andemos todos armados em Polícia Judiciária, faltando ao respeito à memória dos seis miúdos que perderam a vida, às suas famílias e ao sétimo rapaz que todos agora tratamos por Dux, mas que tem um nome, uma família e perdeu seis amigos num acidente terrível.
Só há uma coisa que sei no seguimento daquilo que escrevi anteriormente. Não é suposto utilizar a praxe para actividades que colocam vidas em risco, ao fim de semana e na praia com a costa portuguesa em alerta vermelho. E neste sentido, todos os envolvidos são responsáveis, praxantes e praxados, tendo tido, infelizmente, a maior punição possível.
Agora, se mesmo depois desta terrível lição, os estudantes da Lusófona e de outras semelhantes, continuam a achar-se no direito de prosseguir com este tipo de actividades arriscadas e de ainda por cima não falarem sobre elas, passando por cima de todos os limites da dignidade humana, meus amigos, que se lixe a praxe. Se é impossível regular as atividades praxísticas de um modo que vá para além do código de praxe e se é impossível controlar a estupidez humana de modo a evitar que outras tragédias aconteçam, que se lixe a praxe. Até porque, como sempre dizíamos: "quando um faz m****, todos fazemos m****".